Do descarte ao mercado de valor: empreendedora transforma sombrinhas em moda sustentável na Amazônia
Em Belém, no Pará, sombrinhas quebradas — antes vistas como lixo urbano — agora ganham uma segunda vida nas mãos de uma empreendedora na Amazônia que transforma descarte em identidade, impacto social e inovação.
Terça, 28/04/2026, 08:00
Em Belém, onde a chuva é quase uma assinatura da paisagem, foi no acúmulo de sombrinhas quebradas que a empreendedora Lora Cirino encontrou matéria-prima — e propósito. O que antes era descartado nas ruas da capital paraense, hoje ganha nova vida em suas mãos, transformando-se em bombers impermeáveis, cheias de cor e identidade. Mais do que peças de roupa, são produtos que carregam uma lógica diferente: produzir sem extrair, criar sem desperdiçar.
A ideia surgiu de forma intuitiva, quase como experimento. Ao observar a resistência e a variedade de estampas das sombrinhas, a empreendedora paraense enxergou ali um potencial pouco explorado. Começou com testes e ajustes até chegar a um modelo que unisse estética, funcionalidade e durabilidade. O resultado rapidamente chamou a atenção nas redes sociais e passou a atrair clientes interessados não apenas no design, mas na história por trás de cada peça.
Empreender com propósito: quando a criatividade transforma descarte em negócio
“A customização sempre fez parte da minha trajetória. Em 2000, criei minha primeira marca, Loramoara, totalmente voltada para peças personalizadas. Em 2015, surgiu a Osada, na época, produzia sapatos de forma artesanal, unidade por unidade, o que me permitia explorar mais e experimentar materiais e técnicas — algo difícil em processos industriais. Primeiro comecei com sapatos e depois com roupas”, relembra a empreendedora Lora Cirino.
Hoje, como proprietária da Osada, ela conta que seu primeiro contato com o Instituto Alachaster — negócio social com forte atuação na Amazônia, voltado à sustentabilidade, bioeconomia e logística reversa, que também conecta iniciativas sustentáveis e apoia pequenos empreendedores verdes — marcou uma virada importante. Foi aí que surgiu uma proposta de reaproveitamento de materiais, algo que imediatamente despertou seu interesse. “A preocupação com a redução de resíduos sempre esteve presente no meu trabalho e na minha vida. Desde o início, já buscava reciclar ao máximo tudo o que era possível dentro da produção, levando para a marca um compromisso genuíno com práticas sustentáveis”, afirma.
Foi nesse contexto que Lora Cirino começou a trabalhar com o tecido de sombrinhas. “Sabíamos que tinha potencial: além de visualmente interessante, é impermeável e resistente — características ideais para calçados, que exigem materiais mais duráveis do que os usados no vestuário. O primeiro teste foi um sucesso, e essa linha de sapatos feitos com sombrinhas passou a fazer parte da nossa identidade. Com o tempo, expandimos essa ideia também para a roupa, mas o conceito do reaproveitamento e da experimentação com materiais continuou sendo um elemento central no meu processo criativo. Comecei a desenvolver esse projeto com a Lene, modelista formada em Moda, cujo TCC foi sobre reaproveitamento de resíduos. Juntas, decidimos usar o tecido de sombrinhas para criar um corta-vento — um produto que traduz perfeitamente essa proposta. A primeira peça deu tão certo que se tornou nosso principal símbolo de sustentabilidade. Hoje, lançamos esse item em drops limitados, com poucas unidades, por ser um processo demorado e artesanal. Apesar do baixo custo da matéria-prima, todo o trabalho de higienização, modelagem e costura agrega valor e torna cada peça única. Ele é sempre um produto muito especial”, diz ela.
A empreendedora lembra que seu primeiro contato com o Instituto Alachaster — negócio social com forte atuação na Amazônia, voltado à sustentabilidade, bioeconomia e logística reversa, que também conecta iniciativas sustentáveis e apoia pequenos empreendedores verdes — marcou uma virada importante. Foi aí que surgiu uma proposta de reaproveitamento de materiais, algo que imediatamente despertou seu interesse. “A preocupação com a redução de resíduos sempre esteve presente no meu trabalho e na minha vida. Desde o início, já buscava reciclar ao máximo tudo o que era possível dentro da produção, levando para a marca um compromisso genuíno com práticas sustentáveis”, afirma ela.



Economia circular: iniciativas de upcycle impulsionam negócios no Pará
Renata Batista, gerente de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae/PA (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Pará), destaca que o Pará vive um fortalecimento dos negócios baseados em reaproveitamento e economia circular, um movimento que ganha cada vez mais tração no estado.
Inserido no contexto do Upcycle Amazônico (transformação de resíduos e materiais descartados da região em produtos de maior valor, aliando sustentabilidade, criatividade e identidade cultural), o trabalho da Osada com cada jaqueta bomber revela como a criatividade pode transformar desafios urbanos em oportunidades. O produto nasce de um processo manual: coleta das sombrinhas, desmontagem cuidadosa, higienização e recomposição dos tecidos. Nenhuma peça é igual à outra — e é justamente essa exclusividade que agrega valor ao final.
Mas o caminho até o reconhecimento não foi imediato. No início, a empreendedora enfrentou muitas dificuldades, principalmente financeiras e logísticas de produção. Foi a insistência, aliada à qualidade, que mudou essa realidade. Hoje, suas criações circulam como símbolo de uma moda mais consciente, que dialoga com o território e com novas formas de consumo.
“A Osada tem várias frentes. O upcycle não é o principal, mas tem um papel muito importante, ele sempre estará em destaque, é um produto muito importante para a gente. É um produto de nicho, voltado às pessoas que valorizam a sustentabilidade e têm conexão com o tema ambiental. Por isso, busco criar variações — de peças mais sóbrias a mais coloridas — para ampliar o alcance dentro desse público. Nem sempre é o mesmo cliente da marca, mas quem compra entende e valoriza a proposta”, explica a empreendedora.
Pequenos negócios, grandes impactos e novas oportunidades
A gerente de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae/PA explica que, para os pequenos negócios, o upcycle pode ser uma oportunidade estratégica por exigir menos investimento inicial e permitir diferenciação no mercado.
“O upcycle tem um papel importante porque agrega valor ao que antes seria descartado. Na prática, ele transforma resíduos em produtos com maior valor de mercado, estimulando criatividade e inovação. Isso gera renda, movimenta cadeias produtivas locais e ainda reduz impactos ambientais”, reforça Renata Batista.
Mais do que tendência estética, o trabalho da empreendedora paraense reflete uma resposta local aos desafios globais. A Amazônia, historicamente associada à biodiversidade, começa a ser reconhecida também pela criatividade de seus empreendedores. Ao transformar resíduos em produtos de valor agregado, iniciativas como a da Osada ampliam o conceito de sustentabilidade para além do discurso — tornando-se prática cotidiana.
O impacto vai além do ateliê. Dados do Sebrae Pará mostram que pequenos empreendimentos sustentáveis têm papel estratégico no desenvolvimento regional ao gerar renda, estimular cadeias produtivas locais e reduzir resíduos. Quando uma sombrinha descartada vira jaqueta, não é apenas um produto que nasce — é também uma oportunidade que circula entre cooperativas de catadores, costureiras e colaboradores que encontram na iniciativa uma fonte de trabalho, renda e aprendizado, além de consumidores conscientes.
“Sabemos que reutilizar sombrinhas retiradas das ruas pode não resolver a poluição em escala global, mas transforma mentalidades”, destaca Lora Cirino. Para a empreendedora paraense, o maior impacto desta ação é educativo: ao despertar o consumo consciente, incentiva as pessoas a repensarem suas escolhas.
"É um trabalho feito com propósito e amor. É um processo caro e demorado — o tempo de um casaco poderia render várias outras peças —, por isso não é guiado pelo lucro, mas pelo desejo de dar significado ao que se produz e provocar mudança na forma como o mundo enxerga o descarte”.
Lora Cirino Empreendedora e proprietária da Osada
Inovação e empreendedorismo no Pará com impacto real
A atuação da Osada segue esse fluxo através do fortalecimento de uma rede de impacto social que conecta mulheres potentes, cooperativas e institutos parceiros, transformando o que seria lixo em consciência. Para a empreendedora, ser uma marca de Belém que fala para o mundo é entender que cada sombrinha recuperada também carrega uma história.
“Embora o nosso foco atual seja a estamparia, também quero ampliar os produtos feitos a partir das sombrinhas para novos acessórios, como bolsas e vestuários; mas é um processo que precisa ser muito estudado, muito testado, para garantir que cada peça tenha informação de moda e acabamento impecável. A ideia é ampliar esse mix de produtos. Na estamparia, que foi o nosso forte do ano passado para cá, nossa essência foi contar histórias de Belém, do Pará. Trocamos estampas genéricas por elementos da nossa fauna, como o tambaqui e o tucunaré. O que eu quero com esses 10 anos de Osada é oferecer à mulher de Belém acesso às mesmas coisas que ela procura em uma marca nacionalmente, seja através de tecidos leves que respeitam o nosso clima local, modelagens inclusivas e caimento que une conforto, estilo e identidade regional”, destaca a empreendedora paraense, reforçando que, mais do que fabricar produtos, a marca também visa despertar o olhar das pessoas para a sustentabilidade, seja através das sombrinhas reutilizadas ou de projetos futuros.
No Pará, de acordo com a gerente de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae/PA, os pequenos negócios possuem uma conexão profunda com o território. São empreendimentos que florescem a partir dos saberes locais, com forte presença da bioeconomia, da moda autoral, do artesanato e da gastronomia. “É um público que une propósito e geração de renda, com preocupação crescente em reduzir impactos ambientais e valorizar cadeias produtivas locais. Além disso, há uma presença significativa de mulheres e jovens liderando esses negócios, o que reforça o caráter inovador e inclusivo desse segmento”, aponta Renata Batista.
A especialista também acentua que o Pará possui um diferencial competitivo único, alicerçado em sua biodiversidade e riqueza cultural, e, com a expansão da bioeconomia e da economia criativa, consolida-se como referência nacional. Para a gerente de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae, a visibilidade de agendas globais, como a COP 30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), amplia o acesso a novos mercados e fortalece o posicionamento estratégico dos negócios paraenses. Diante desse cenário, a orientação dela para quem deseja transformar uma ideia simples em um negócio viável é focar em estratégia. Renata Batista ressalta que o sucesso de um empreendimento sustentável começa na estruturação da ideia: é preciso identificar o cliente, resolver problemas reais e entregar valor além da ecologia. “Temos que lembrar que o consumidor não compra só pela sustentabilidade, mas pelo valor percebido. Além disso, é importante testar o mercado, começar pequeno, ajustar o modelo e buscar capacitação. O Sebrae no Pará pode apoiar o empreendedor em todas essas etapas, ajudando a transformar uma ideia simples em um negócio sustentável. Temos soluções gratuitas para orientar os empreendedores em todas as nossas 13 agências do interior do estado e nas Salas do Empreendedor nos 144 municípios paraenses”, direciona ela.
No fim, a história que começa com uma sombrinha quebrada revela algo maior. Em uma região marcada por desafios estruturais e riqueza cultural, empreendedores como Lora Cirino mostram que a inovação pode nascer do cotidiano. Ao transformar resíduos em novas oportunidades, ela não apenas cria moda — ela constrói um modelo de desenvolvimento onde criatividade, sustentabilidade e empreendedorismo caminham juntos.
Andressa Ferreira
Reportagem e Coordenação Sênior
Ronald Sales
Coordenação Executiva
“Esse movimento vem ganhando força nos últimos anos e aqui no Pará não seria diferente. A economia circular tem se consolidado como uma alternativa ao modelo tradicional de produção, justamente por propor o reaproveitamento de materiais e a redução de resíduos. No estado, isso aparece em iniciativas que transformam resíduos em novos produtos, especialmente nos setores criativo e artesanal; enfim, é uma tendência impulsionada tanto pela necessidade quanto por um consumidor mais consciente”.
Renata Batista Gerente de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae/PA