Floresta que gera futuro: o novo agronegócio na Amazônia
No Pará, comunidade transforma o solo degradado em um sistema produtivo que une agricultura, floresta, tecnologia e pessoas – mostrando que o agronegócio do futuro já está em curso na Amazônia.
Quinta, 26/02/2026, 07:00
Por anos, o solo parecia ter esgotado suas possibilidades. A terra seca, compactada e pouco produtiva era reflexo de um modelo que extraiu mais do que devolveu. Hoje, no mesmo espaço, o cenário é outro: árvores frutíferas dividem espaço com espécies nativas, cultivos alimentares crescem à sombra da floresta e o solo voltou a respirar, formando um sistema vivo que produz alimento, renda e equilíbrio ambiental.
Essa transformação acontece na Ecovila Iandê, em Santa Bárbara do Pará, na Região Metropolitana de Belém, onde a agrofloresta deixou de ser conceito técnico para se tornar prática concreta de um novo agronegócio amazônico – mais resiliente, produtivo e conectado ao território.
Da degradação à regeneração produtiva
O agronegócio brasileiro enfrenta um dos seus maiores dilemas: produzir mais alimentos em um cenário de mudanças climáticas, pressão ambiental e cobrança por sustentabilidade. Na Amazônia, esse desafio é ainda maior. Secas mais longas, chuvas irregulares e solos fragilizados exigem soluções que vão além do modelo tradicional. Foi nesse contexto que os moradores da Ecovila Iandê decidiram apostar em um caminho diferente: produzir com a floresta, e não contra ela.
Tudo começou quando um grupo de amigos decidiu ir atrás de um espaço para formar uma comunidade e usar práticas mais sustentáveis para habitar. Lenise Oliveira, presidente do Instituto Iandê e co-fundadora da Ecovila Iandê, lembra que a formação do grupo começou em 2010, e em 2011, os integrantes foram fazer uma vivência na estrada de Genipaúba, onde havia um instituto de permacultura (sistema de planejamento socioambiental que visa criar assentamentos humanos autossustentáveis).
“O grupo resolveu adquirir para começar a convivência com a natureza. A nossa maior dificuldade foi a questão da degradação da área, o solo havia sofrido muito com a atividade humana, tanto da monocultura com pimenta-do-reino e maracujá, mas, principalmente atividade de extração, areia, barro e aterro. Foi tirada uma quantidade muito grande do solo, com várias cicatrizes, várias crateras. Era uma área que tinha sido toda maquinada, uma compactação de solo muito grande. O desafio maior foi esse”, recorda ela.
A recuperação não veio de forma imediata – exigiu planejamento, conhecimento técnico e, principalmente, visão de longo prazo. A médica veterinária sanitarista, afastada da profissão por formação há mais de 15 anos e hoje agricultora florestal, explica que a escolha pela agrofloresta significou combinar, em um mesmo espaço, espécies, frutíferas e árvores nativas, respeitando o ritmo da natureza e a sucessão natural das plantas.



Tecnologia que não vem só de máquinas
Na Ecovila Iandê, tecnologia não é sinônimo apenas de equipamentos e insumos industriais. Ela está presente no desenho do sistema produtivo. Cada espécie cumpre um papel: algumas produzem alimento, outras recuperam o solo, e há àquelas que regulam a umidade e o microclima.
Moradores de Primavera, no Pará, Jaqueline Silva e o filho John Wagner são agricultores florestais e estiveram na Ecovila Iandê atrás de vivências e mais conhecimento.
“A técnica que a gente utiliza é sistema agroflorestal sustentável, do módulo sintrópico, que é a acumulação de energia, onde a gente traz para o solo matéria orgânica, sem agrotóxicos ou fertilizantes, para regenerar o solo sem degradar, mas usando todos os benefícios que a natureza pode nos proporcionar”, detalha Jaqueline Silva, que também é presidente da Associação Guarumandeua.
Para o agronegócio, Jaqueline destaca que a sintropia vem representando uma alternativa estratégica diante das crescentes demandas por sustentabilidade, produtividade de longo prazo e redução de impactos ambientais, ao mesmo tempo em que pode melhorar a resiliência das lavouras às mudanças climáticas e agregar valor aos produtos no mercado.
Resultados além da colheita: a rede viva que faz o sitema funcionar
Os impactos da agrofloresta não se limitam à produção agrícola. Um dos principais aprendizados da Ecovila Iandê é que ninguém produz sozinho. O sistema funciona porque está conectado a uma rede maior que envolve troca de sementes, conhecimento técnico, saberes tradicionais e formação de jovens.
A experiência mostra como a agrofloresta pode aliar conservação ambiental e desenvolvimento econômico. Ao integrar culturas agrícolas com espécies nativas da Amazônia, o sistema fortalece a segurança alimentar das famílias, amplia a diversidade de produção e gera renda ao longo de todo o ano, com a comercialização de frutas, hortaliças, sementes e produtos beneficiados. Jaqueline Silva e o filho Johan Wagner têm a consciência de que o trabalho feito por eles vai além de recuperar áreas degradadas e aumentar a resistência climática: cria oportunidades para agricultores, jovens e mulheres, impactando diretamente a comunidade e, de forma indireta, cadeias locais de fornecimento, feiras e redes de consumo consciente no Pará.
Onde floresta e produção crescem juntas: um modelo que aponta caminhos
Com Belém no centro das discussões globais sobre o clima e sustentabilidade, principalmente após ter sido palco da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), experiências como a da Ecovila Iandê mostram que o Pará não é apenas parte do problema – é parte da solução.
A agrofloresta surge como uma alternativa viável, escalável e alinhada às exigências do mercado moderno, que tem valorizado origem, sustentabilidade e impacto social. Walkymário Lemos, chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), aponta os impactos positivos dos sistemas agroflorestais para Amazônia em diferentes perspectivas.
“Temos um impacto produtivo de diversificação de cultivo e oferta de alimento e renda ao longo do ano para as populações que adotam esse sistema. Também tem o impacto positivo sobre a perspectiva ambiental, já que são sistemas amigáveis ambientalmente, sistemas que poupam terra, capazes de serem implantados em áreas em diferentes processos de degradação e, com isso trabalha a lógica de uma restauração ambiental produtiva. Também são sistemas que garantem oferta e renda, que por consequência provoca e promove melhorias não apenas ambientais, como econômicas e sociais para as populações”, destaca ele.
Para Walkymário Lemos, a agrofloresta se fortalece quando há circulação de informação e cooperação – um modelo para a bioeconomia sustentável no Pará, que dialoga diretamente com o futuro do agronegócio brasileiro.
“Nós apostamos e defendemos que esses sistemas biodiversificados no modelo de agroflorestas são sem sombra de dúvidas, um dos modelos sustentáveis que mais podem contribuir para expressar essa mega riqueza bioeconômica presente na Amazônia. E de que forma nós podemos modelar esses sistemas a ponto de que eles expressem sua magnitude? Fazendo com que os componentes da agrofloresta apresentem na sua diversificação de cultivos, espécies que sejam valiosas não apenas para a produção de alimentos, como para a produção de produtos madeireiros e não madeireiros e agroalimentares. Portanto, nós temos a convicção que dentre os exemplos que mais representam um modelo sustentável de se produzir alimento e renda, mas preocupando-se com a conservação ambiental correta da Amazônia, os SAFs (sistemas agroflorestais) se destacam e são na minha concepção, sinônimo de uma Amazônia que preserva, que cuida e que é capaz de produzir alimento com sustentabilidade”, pontua ele.
O chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental destaca ainda que a articulação estratégica entre governo, ciência e comunidade tem se mostrado decisiva para acelerar avanços no agronegócio, especialmente quando o foco está na sustentabilidade e na preservação ambiental. Para Walkymário Lemos, políticas públicas bem estruturadas, aliadas ao conhecimento técnico produzido por instituições como a Embrapa, criam um ambiente favorável à inovação no campo, promovendo tecnologias de baixo impacto, recuperação de áreas degradadas e uso mais eficiente de recursos naturais. Ao mesmo tempo, a participação ativa de produtores rurais, cooperativas e comunidades locais garante que soluções sejam aplicáveis à realidade do campo, ampliando sua eficácia e alcance.
“O governo entrando com a perspectiva de fomentar esses sistemas através de políticas públicas, de incentivos, de fomento, para que esses sistemas, que geram indicadores e parâmetros através do saber científico, possam ser adotados pelas comunidades em diferentes territórios. Sendo, portanto, necessário que o saber local das populações tradicionais, sejam ribeirinhos, agroestrativistas, agricultores familiares nas suas diferentes perspectivas, quilombolas, comunidades indígenas diversas, também seja incorporado. Uma vez orquestrado esses diferentes elos, nós temos a convicção de que poderemos replicar os exemplos exitosos que nós temos na Amazônia”.
Walkymário Lemos Chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental
Iniciativas agroflorestais vêm consolidando um legado estratégico para o agronegócio, especialmente no Pará, ao aliarem competitividade econômica, conservação ambiental e inclusão social. Para Walkymário Lemos, esses sistemas têm “um potencial muito explícito de deixar diferentes legados, não apenas para o agronegócio paraense, mas para as populações”, ao posicionarem cadeias como açaí, cacau, cupuaçu, café e dendê oriundos de sistemas agroflorestais com uma forte identidade amazônica e maior valor agregado no mercado. Ele destaca ainda que, do ponto de vista ambiental, “são modelos reconhecidamente capazes de neutralizar emissões de carbono, melhorar as estruturas físicas, químicas e biológicas do solo, favorecer o microclima e ampliar a oferta de alimentos, contribuindo para a preservação da biodiversidade local”.
Além do impacto econômico e ecológico, o chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental defende que o maior diferencial está no alcance social: ao incluir populações historicamente vulnerabilizadas no acesso à tecnologia e às oportunidades produtivas, “os sistemas agroflorestais promovem inclusão socioprodutiva e se afirmam como a expressão de um modelo amazônico sustentável, capaz de produzir alimento enquanto mantém vivas e produtivas as florestas da Amazônia brasileira”.
Na Ecovila Iandê, o futuro do agronegócio não é discurso nem promessa. Ele já está plantado, crescendo em sistemas vivos que unem floresta, alimento e pessoas. Em um cenário de incertezas climáticas, a experiência de comunidades no Pará mostra que produzir respeitando a natureza não reduz o potencial do agro – amplia. E talvez seja exatamente aí que esteja a principal lição para o Brasil: quando a floresta vira aliada, o agronegócio encontra novos caminhos para prosperar.
Andressa Ferreira
Reportagem e Coordenação Sênior
Emerson Coe
Multimídia
- Email:hojerijah@gmail.com
Ronald Sales
Coordenação Executiva
“A gente consegue estudar, tomar conhecimento e trazer essa tecnologia para a agricultura familiar, onde até então a gente só roçava, queimava e plantava. Então, dentro da agricultura sintrópica não. A gente além de plantar diversidade, a gente consegue colocar para o solo aquilo que a natureza produz, onde aquilo vai contribuir com a regeneração do solo e da biodiversidade”.
Jaqueline Silva Agricultora agroflorestal