Do rejeito à solução: mineração aposta no futuro climático
Reportagem especial destaca como o setor da mineração vem se reinventando diante das mudanças climáticas. Empresas transformam resíduos em novas fontes de energia e materiais sustentáveis, fazendo com que a transição verde chegue ao coração da indústria mineral, unindo inovação e responsabilidade ambiental.
Quarta-feira, 29/10/2025, 08:00
Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), os olhares do mundo se voltam para Belém e para a Amazônia. Cientistas, líderes políticos e representantes de diversos setores buscam caminhos para conciliar desenvolvimento e preservação ambiental em uma das regiões mais estratégicas do planeta. Enquanto o discurso global se volta à urgência climática, no coração do Pará, uma iniciativa já colocada em prática vem fazendo a diferença na região e no dia a dia de muitos trabalhadores e suas respectivas famílias.
Em Carajás, dragas 100% elétricas e tecnologia inédita de concentração magnética estão sendo usadas para o reaproveitamento de rejeitos, transformando-os em minério de ferro de alto teor. O resultado é uma operação que une inovação, eficiência e descarbonização, posicionando o Pará como referência mundial em mineração circular e mostrando que é possível aliar setor mineral e sustentabilidade.
Mineração circular: novo destino aos resíduos das atividades nas minas
Iniciado em 2023, o Projeto Gelado, desenvolvido pela Vale, atua na mina de Carajás Serra Norte, no município de Parauapebas (PA), e simboliza um novo modelo de exploração mineral baseado em reaproveitamento e descarbonização. O objetivo é transformar o que antes era rejeito em um produto ambientalmente responsável.
“O Gelado é um projeto que vem com o compromisso de aproveitar o rejeito da barragem e transformá-lo em um produto economicamente viável. É uma proposta de mineração circular e de compromisso com a descarbonização”, explica Leandro Seixas, colaborador da Vale há 23 anos e gestor do projeto.
Cerca de 350 pessoas atuam nas áreas de operação e manutenção do Gelado, entre engenheiros, técnicos e operadores, como Janaína Silva, de 30 anos, que faz parte da equipe responsável pelas dragas elétricas. “Antes, o rejeito era apenas depositado na barragem. Agora, ele é reaproveitado e volta ao processo produtivo, sendo transformado em um produto de alta qualidade. O que mais me impressiona é saber que faço parte de uma operação que não emite CO₂ e que ajuda a reduzir impactos ambientais. É motivo de muito orgulho”, afirma a jovem.
Para Janaína Sailva, operar um equipamento elétrico em um projeto de baixo carbono é mais do que um trabalho técnico, “significa estar envolvida em uma operação inovadora, que transforma um passivo ambiental em um ativo de valor. A tecnologia permite o reaproveitamento de milhões de toneladas de material e contribui diretamente para a sustentabilidade da mineração”.
Tecnologia que gera valor e reduz emissõeS
O funcionamento do projeto é um exemplo de mineração circular de alta eficiência. Tudo começa na barragem do Gelado, onde quatro dragas 100% elétricas, movidas por energia proveniente de fontes renováveis, eliminam o uso de combustíveis fósseis. Essa massa é bombeada por meio de tubulações até a estação de peneiramento, onde o material é classificado por tamanho e qualidade. A partir daí, o rejeito passa por um processo de espessamento (adensamento), que reduz o volume de água e aumenta a densidade do minério. O material mais concentrado segue por um mineroduto – sistema que mistura minério fino e água – até o prédio de concentração magnética, tecnologia inédita no Pará. O minério é submetido aos campos magnéticos que separam as partículas de ferro das impurezas, resultando em um produto de alto teor e valor agregado. Depois, o material passa pela filtragem e secagem, sendo então encaminhado aos pátios de estocagem para posterior transporte ferroviário.
Com esse processo, além de evitar o descarte de rejeitos, há redução do uso de combustíveis fósseis, transformando o que antes era considerado resíduo em um novo ciclo produtivo sustentável, alinhado às metas de descarbonização da mineradora até 2030.
Esse sistema, de acordo com o gestor do projeto, permitirá que, em 10 anos, o Gelado deixe de emitir cerca de 484 mil toneladas de CO₂, o equivalente à emissão anual de 105 mil carros populares movidos a gasolina. Além do impacto ambiental positivo, o processo evita o desgaste de rodovias e reduz riscos associados ao transporte mineral convencional. “O uso de eletricidade renovável nas dragas reforça o compromisso com a sustentabilidade. Estamos conectando inovação e responsabilidade ambiental de forma concreta. Evitar que gases de efeito estufa cheguem à atmosfera e reaproveitar resíduos é mais do que inovação, é compromisso com as futuras gerações”, reforça Leandro Seixas.
O papel da circularidade no futuro da mineração na Amazônia
O Gelado integra o programa de mineração circular Waste to Value, que transforma rejeitos e estéreis em insumos produtivos, reduzindo a geração de resíduos e otimizando o uso dos recursos minerais. A iniciativa já identificou mais de 100 projetos circulares nas operações da mineradora. Somente em 2024, 12,7 milhões de toneladas de minério de ferro foram produzidas a partir de fontes reaproveitadas.
“A circularidade remodela o futuro da mineração. O Gelado é um exemplo claro de que é possível unir eficiência produtiva, menor impacto ambiental e geração de valor local”, afirma Rodrigo Cristeli, gerente-geral de operação de Usina de Serra Norte.
A meta para 2030 é que 10% da produção anual da mineradora seja proveniente desse tipo de operação. A circularidade, conceito alinhado aos compromissos da COP30, torna-se uma ferramenta essencial para neutralizar emissões de carbono e ampliar o aproveitamento das reservas minerais, uma das maiores demandas globais para os próximos anos.
Segundo Rodrigo Cristeli, atualmente, 60% do minério de ferro da Vale é produzido no Pará, utilizando apenas 3% da área total do Mosaico de Carajás, um território de 800 mil hectares de floresta sob proteção conjunta da empresa e do ICMBio. A mineradora também tem investido fortemente em bioeconomia, reflorestamento e pesquisa sobre biodiversidade, além de apoiar o recém-criado Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, um dos legados previstos para a COP30 em Belém.
“A mineração circular contribui para reduzir rejeitos, gerar produtos de alta qualidade, além de criar oportunidades de trabalho e capacitação local. É uma nova forma de pensar o uso dos recursos minerais na Amazônia”, completa o gerente-geral de operação da mineradora.




Reciclagem que transforma: o impacto social da economia circular no Pará
Se nas montanhas de Carajás, a inovação tecnológica transforma rejeitos em minério novamente útil, nas cidades do sudeste do Pará, a circularidade também vem mudando vidas, desta vez, de quem aprendeu a enxergar valor no que antes era descartado.
Em Marabá e Canaã dos Carajás, cooperativas de catadores mostram como a economia circular pode gerar emprego, renda e cidadania, ao mesmo tempo em que reduz os impactos ambientais e fortalece comunidades locais. É o caso da Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis (Corema), que nasceu de um curso de empreendedorismo social comunitário, após uma parceria entre a mineradora Vale, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e a associação de moradores do bairro.
Wesley Faustino, presidente da Corema, lembra que o projeto surgiu diante de uma necessidade econômica. “Eu estava desempregado e percebi que muitas famílias também precisavam de renda. Foi assim que começamos”, recorda ele. Seis anos depois, a cooperativa se tornou referência regional, hoje contando com empilhadeiras, prensas e oficinas para tratar sucata não ferrosa, o que profissionalizou totalmente o trabalho.
“Antes éramos amadores, agora somos uma cooperativa estruturada, com gestão, contratos e maquinário. Temos 21 cooperados, onde 12 trabalham no galpão e o restante faz a coleta porta a porta”, explica Faustino, ressaltando o apoio que a Corema recebeu através de consultorias, cursos e capacitações, permitindo que a cooperativa firmasse contratos com empresas privadas, indo além da simples coleta de resíduos.
Um dos exemplos é Marcos Antônio Pinheiro da Silva, de 21 anos, tesoureiro da Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis, que iniciou suas atividades como menor aprendiz aos 17 anos, e hoje atua na área administrativa. “O trabalho que fazemos não apenas limpa o meio ambiente, mas também conscientiza as pessoas. A gente faz palestras em escolas e empresas, e também usa as redes sociais para divulgar dicas de separação correta do lixo”, comenta ele, cheio de orgulho.
Magda Martins Vieira Oliveira, que há três anos faz parte da Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis, também viu a vida mudar. “Antes, eu não tinha emprego e precisava trabalhar longe dos meus filhos. Hoje, fico perto da família, construí minha casa e até tirei minha habilitação. O que antes era lixo virou sustento”, diz ela, emocionada.
Em Canaã dos Carajás, a história é semelhante. A Coolettar nasceu em 2014, após o fechamento do lixão municipal, reunindo antigos catadores em busca de formalização e dignidade. Depois, ganhou apoio e parcerias que ajudaram não apenas na regularização de documentos, mas na segurança no ambiente de trabalho. Um salto para quem antes trabalhava em condições insalubres, segundo lembra Valéria Silva, presidente da Cooperativa de Catadores de Canaã dos Carajás.
Atualmente, a Coolettar recebe resíduos que seriam destinados para empresas homologadas, fortalecendo a cooperativa, além de garantir geração de renda local e evitar que materiais recicláveis sejam desperdiçados. A parceria com a Vale faz parte das ações da mineradora voltadas para a preservação do meio ambiente e o fortalecimento de práticas sustentáveis. “A Vale nos trouxe autonomia, segurança e agilidade. A capacitação ajudou na organização e os equipamentos reduziram a exposição e o risco em relação ao lixão. Muitos aqui viviam em vulnerabilidade social e hoje têm renda estável, reconhecimento e cidadania”, festeja Valéria Silva.
O sentimento de crescimento coletivo também é celebrado por Marli Sodré, gerente-geral da Coolettar. “Quando cheguei, não sabia nada sobre reciclagem. Hoje, sou gerente e entendo todo o processo. Aprendi muito”, relata ela. Atuando na área administrativa, Caroline Sousa também reforça a importância da estabilidade financeira: “A cooperativa me ajuda com a renda, me dá autonomia e eu adoro trabalhar aqui.”




Para Lourival ‘Índio’, diretor de Relações Públicas da Cooperativa de Catadores de Canaã dos Carajás, o trabalho vai além da reciclagem. “A gente não só cuida do meio ambiente, mas também ajuda pessoas que antes não tinham oportunidade. Vemos a Coolettar crescer desde 2016 e é um orgulho enorme fazer parte disso”, comemora ele.
Juntas, Corema e Coolettar mostram que a economia circular não é apenas um conceito industrial, mas uma rede de transformação humana. Do reaproveitamento de rejeitos minerais ao reaproveitamento urbano de resíduos, o Pará constrói um modelo em que sustentabilidade e inclusão social caminham lado a lado.
COP30: os benefícios de aliar ciência, tecnologia e gestão ambiental
À medida em que o mundo discute os compromissos climáticos e os caminhos para a neutralidade de carbono, o Pará ganha protagonismo ao sediar a COP30. Investimentos em inovação, ações e projetos mostram que a mineração pode ser parte da solução climática, quando aliada à ciência, à tecnologia e à gestão ambiental.
João Márcio Palheta, doutor pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), professor titular da Faculdade de Geografia e Cartografia da Universidade Federal do Pará (UFPA) e professor do Doutorado em Sustentabilidade e Desenvolvimento da UniLuanda (Angola), reforça que o reaproveitamento de rejeitos, quando bem conduzido, tem pegada territorial muito menor que a lavra tradicional. “O uso de dragas elétricas elimina emissões diretas e ruídos locais. O reaproveitamento de rejeitos reduz a pressão por novas áreas de lavra, evita supressão de florestas e melhora o microclima local, mas é preciso garantir que isso não sirva para expandir a produção, e sim substituí-la por processos mais limpos”, explica o especialista, que atua como pesquisador nas áreas de sustentabilidade e desenvolvimento.
Para o professor da UFPA, seguindo na perspectiva da COP30 e da Amazônia, iniciativas voltadas para o meio ambiente e sustentabilidade no setor mineral, através do reaproveitamento de rejeitos e resíduos, são essenciais para conectar atividade mineral à mitigação das mudanças climáticas, ao compromisso com o desmatamento zero e o fortalecimento das cadeias responsáveis.
"É fundamental construir uma agenda política integrada, com participação de governos, empresas, universidades e sociedade civil, que vá além dos discursos e avance para políticas de agregação de valor ao produto e ao trabalho local. A reciclagem, por exemplo, é o elo que conecta a mineração de baixo carbono com a cidadania. É a prova de que uma Amazônia produtiva também pode ser uma Amazônia humana e sustentável."
João Márcio Palheta Doutor pela Unesp, professor titular da UFPA e professor do Doutorado em Sustentabilidade e Desenvolvimento da UniLuanda (Angola). Foto: Arquivo Pessoal
André Cutrim Carvalho, economista do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (CORECON-PA-AP) e Professor-Pesquisador da Faculdade de Economia e do Núcleo de Meio Ambiente da Universidade Federal do Pará (UFPA) também reforça o potencial da combinação entre sustentabilidade e inovação tecnológica. Para ele, a medida pode influenciar de maneira decisiva nos investimentos privados e nas políticas públicas voltadas à mineração responsável no Brasil.
“Na prática, empresas que adotam tecnologias limpas, sistemas de monitoramento avançados e processos produtivos de baixo carbono ampliam o acesso a instrumentos financeiros com melhores condições, tais como os títulos verdes (também chamados de green bonds) e financiamentos atrelados a metas de sustentabilidade, enquanto políticas públicas eficazes podem incorporar incentivos fiscais e financeiros, apoio à pesquisa e desenvolvimento e programas de formação de mão de obra local voltados à inovação ambiental. Essa convergência entre tecnologia, inovação, governança e sustentabilidade pode criar, se devidamente sustentada por políticas públicas consistentes e por um ambiente regulatório estável, um cenário mais previsível e competitivo, favorecendo investimentos de longo prazo e possibilitando a consolidação de um padrão de desenvolvimento mineral alinhado aos princípios de eficiência, transparência e responsabilidade socioambiental que tanto desejamos”, opina o especialista.
O Professor-Pesquisador do Núcleo de Meio Ambiente da UFPA acredita ainda que a adoção de práticas sustentáveis pelas mineradoras pode gerar efeitos positivos para a sociedade e para o meio ambiente quando incorporada de forma sistêmica a todas as etapas do ciclo produtivo.
“Com estruturas de controle técnico independentes, sistemas de monitoramento contínuo e políticas públicas integradas será possível alinhar eficiência econômica à responsabilidade socioambiental, promovendo uma transição do modelo extrativo convencional para um padrão de desenvolvimento territorial baseado em inovação, diversificação produtiva e uso racional dos recursos naturais, capaz de promover efeitos estruturantes de longo prazo para as populações locais, por meio do aumento do valor adicionado regional, da retenção das rendas minerais no território e do fortalecimento das cadeias produtivas associadas, assegurando que o valor econômico gerado em nossa região seja convertido em melhorias concretas de bem-estar social e em equilíbrio ecológico sustentável, em conformidade com os princípios de uma economia ambientalmente responsável e orientada pela eficiência na utilização sustentável dos recursos naturais”, finaliza André Cutrim Carvalho.
Brenda Hayashi
Repórter e Fotografia
Andressa Ferreira
Edição e Coordenação Sênior
Ronald Sales
Coordenação Executiva
"Hoje, o catador entende que ele é um verdadeiro agente ambiental. A dignidade e a autoestima voltaram para muitas famílias. Temos cooperados que tiraram habilitação, construíram casa, melhoraram a renda e a vida."
Wesley Faustino Presidente da Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis.Foto: Brenda Hayashi/DOL