Sexta-feira, 06/06/2026

Verônica Preuss trocou a sala de aula pela produção de chocolate e ajudou a transformar o cacau da família, cultivado em Brasil Novo, no Pará, em um produto reconhecido entre os melhores do mundo.

A história de Verônica Preuss começa longe do cheiro do cacau e do sabor intenso do chocolate. Natural de Santa Catarina, construiu a trajetória dela entre salas de aula, cadernos e o amor pela educação. Em 2009, em Brasil Novo, às margens da Transamazônica, no Pará, a vida da professora tomou um rumo inesperado e profundamente transformador.

Ela chegou ao Estado no ano 2000, junto com a família, carregando sonhos e a disposição de recomeçar nessa virada de milênio. Na época, a realidade era desafiadora: faltavam escolas estruturadas e profissionais para atender à comunidade em Brasil Novo, sudoeste do Pará.

Junto com o marido e professor José Preuss, ela se multiplicou para vencer essas dificuldades. “Naquele tempo, a gente lecionava várias matérias. Eu chegava a ensinar cinco disciplinas, e meu marido mais cinco”, relembra.

A educação foi o primeiro alicerce da família Preuss na região. Ambos se formaram em matemática e seguiram contribuindo com o desenvolvimento local. Mas, paralelamente à vida como educadores, outro caminho começava a surgir no sítio da família.

2009, o ano da grande virada

O plantio de cacau começou como uma alternativa, quase experimental. Aos poucos, no entanto, o cultivo foi ganhando força e significado. José Preuss mergulhou em estudos, pesquisando técnicas, aprimorando processos e apostando na qualidade dos frutos e das amêndoas desde o início.

Para se diferenciar de outros produtores, ele optou por trabalhar com cacau com fermentação, apostando em um padrão de qualidade mais elevado desde o princípio. Foi o início de um trabalho cuidadoso, fruto de pesquisa e experimentações práticas. Anos depois, essa dedicação renderia reconhecimento nacional.

Dessa produção mais refinada das amêndoas até o chocolate, houve um longo percurso. Apenas em 2019, dez anos depois do primeiro cultivo, Verônica teve contato com a primeira melanger, equipamento essencial para transformar o cacau em chocolate fino e digno de prêmio, que hoje é a marca registrada dos Preuss. A descoberta marcou uma virada definitiva.

Do pesadelo da pandemia a uma nova profissão

A pandemia de Covid-19 trouxe incertezas para cidadãos do mundo todo. No Brasil, não foi diferente e significou um período de dificuldades e tristezas para muitos brasileiros. Porém, a família Preuss encarou esses obstáculos como o impulso que faltava para dar um salto no novo negócio.

Em meio aos lamentáveis números da pandemia, em 2020, Verônica conseguiu participar do primeiro curso de chocolateria. Nesse mesmo ano, abriu oficialmente a empresa Kakao Blumenn. No ano seguinte, a professora ingressou no segundo curso e realizou o lançamento dos primeiros chocolates da marca no mercado. O que parecia arriscado se revelou uma aposta certeira. “Eu achei que não ia evoluir, mas foi completamente o contrário”, conta a empreendedora.

Naquele ano da entrada definitiva no universo do chocolate, veio uma conquista surpreendente para a família: o prêmio de melhor amêndoa de cacau do Brasil. Esse reconhecimento colocou o trabalho da família Preuss no radar dos promissores produtores do país.

A partir daí, o crescimento do negócio foi consistente. Em 2022, Verônica foi eleita a melhor empreendedora rural do Pará, conquistando o primeiro lugar estadual e regional, além do segundo lugar na etapa nacional do Prêmio Sebrae.

Quinta-feira, 04/06/2026, 11:00

Do sítio em Brasil Novo para o mundo

Iniciado como uma alternativa, o sítio dos Preuss se transformou em um negócio sólido e promissor. A produção de cacau deles ultrapassou fronteiras com a primeira exportação, uma leva ainda modesta destinada ao Paraguai.

O chocolate da família, por sua vez, começou a ganhar espaço nas feiras, eventos e programas de incentivo. Parte dessa evolução contou com o apoio de projetos como a ATeG (Assistência Técnica e Gerencial), que ajudaram a aprimorar técnicas e fortalecer o que a família havia construído com dedicação. Mas, para Verônica Preuss, o diferencial sempre esteve dentro de casa. “Foi uma forma de complementar aquilo que já sabia. Meu marido estuda muito, pesquisa muito. A gente sempre correu atrás”, afirma.

Mudanças corajosas, caminhos mais doces

A decisão de deixar a carreira na educação não foi simples. Foram anos de dedicação à sala de aula. Mas, em 2021, dona Verônica encerrou oficialmente esse ciclo para se dedicar integralmente ao cacau e ao chocolate.

Hoje, ela fala com brilho nos olhos sobre a nova profissão, construída com coragem, estudo e resiliência. Mais do que produzir chocolate, Verônica ajuda a transformar realidades onde vive e pelos lugares em que pode compartilhar o que aprendeu nessa jornada.

Desde o início, ela esteve envolvida com grupos de mulheres da região da Transamazônica, incentivando o trabalho coletivo, o aprendizado e a valorização do cacau como fonte de renda e identidade.

A trajetória de Verônica Preuss é um retrato do empreendedorismo amazônico: feito de raízes profundas, desafios constantes e uma capacidade admirável de reinvenção. Do giz ao cacau, da sala de aula ao mercado internacional, ela prova que nunca é tarde para se reinventar e que os caminhos mais doces surgem justamente das mudanças mais corajosas.

Força feminina na Amazônia

A trajetória de Verônica reflete um movimento maior que vem ganhando força na região. Segundo a diretora técnica do Sebrae/PA, Domingas Ribeiro, o empreendedorismo feminino na Amazônia está em expansão. “Hoje já é possível observar um protagonismo cada vez maior das mulheres nos pequenos negócios. No Pará, mais de 28 mil mulheres foram capacitadas pelo Sebrae apenas em 2025, representando 57% dos atendimentos no estado”, destaca.

Ela explica que setores ligados à bioeconomia, gastronomia regional e produtos naturais têm impulsionado esse crescimento. “A Amazônia oferece oportunidades conectadas à sua vocação econômica e ambiental, permitindo que as empreendedoras atuem com identidade local e alcancem mercados mais amplos”, afirma.

Para Domingas, a cultura amazônica também é um diferencial competitivo. “Os empreendimentos incorporam saberes tradicionais e ingredientes regionais, e o mercado valoriza cada vez mais produtos com origem, história e propósito”, completa.

Produção de cacau no Pará

O cultivo do cacau tem se consolidado como uma das atividades agrícolas mais fortes do Pará, colocando o estado na liderança nacional da produção. De acordo com dados da Sedap (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuárioe da Pesca), atualmente, o território paraense ocupa a posição de maior produtor do país, com uma produção anual de 137,46 milhões de toneladas, impulsionando a economia, gerando empregos e fortalecendo cadeias produtivas ligadas à agricultura familiar e à fabricação de derivados, como chocolates artesanais.

Grande parte dessa produção está concentrada na região do Xingu, responsável por 105,02 milhões de toneladas ao ano. Entre os municípios que lideram a produção estadual estão Medicilândia, com 40,89 milhões de toneladas, seguida por Uruará, com 19,31 milhões de toneladas, e Placas, com 12,88 milhões de toneladas.

A força produtiva desses municípios transformou o Pará em referência nacional no setor cacaueiro e tem aberto espaço para novos empreendedores investirem na produção e comercialização de chocolate.

Caminhos para empreender

Entre os apoios disponíveis, ela destaca programas como o Sebrae Delas, que acompanha mulheres em todas as etapas do negócio. “Desde 2022, já atendemos cerca de 3 mil mulheres em 75 municípios paraenses”, diz.

Outras iniciativas, como o Nisa Delas e o Efeito Furacão, também incentivam negócios inovadores e sustentáveis, enquanto linhas de crédito facilitadas ajudam a reduzir desigualdades no acesso a financiamento.

Para quem deseja começar, o conselho é direto: “Valorizar o próprio território é fundamental. A Amazônia oferece insumos, cultura e oportunidades únicas. Com capacitação e planejamento, é possível crescer de forma sustentável”.

Setores em expansão

  • Bioeconomia

  • Gastronomia regional

  • Produtos naturais

Produtos da Amazônia tem!

  • Origem

  • História

  • Propósito

Com diferencial

  • Valorização da identidade local

  • Uso de saberes tradicionais

  • Ingredientes regionais

Iniciativas para elas

Sebrae Delas

  • Programa acompanha mulheres em todas as etapas do negócio

  • Desde 2022

  • Cerca de 3 mil mulheres atendidas

  • Presença em 75 municípios paraenses

Outras iniciativas

  • Nisa Delas

  • Efeito Furacão

  • Linhas de crédito facilitadas

Incentivo às mulheres

  • Ampliação do acesso ao financiamento

  • Redução das desigualdades no empreendedorismo

Cacau no Pará

Impactos do setor cacaueiro

  • Expansão do mercado de chocolates artesanais
  • Fortalecimento das cadeias produtivas
  • Geração de renda no campo
  • Novas oportunidades para empreendedores

Fonte: Sedap — Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca do Pará

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Anderson Araújo

Editor / coordenador